A Polícia Federal e o Ministério Público Federal cumprem nesta quinta-feira (14), mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 64 endereços. A Operação Malebolge é uma sequência da Operação Ararath, que investiga desvio de dinheiro público e lavagem de dinheiro por meio de factorings clandestinas. Não há mandados de prisão.
A Operação Ararath, que desde 2013 já teve várias fases, investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro e crimes financeiros em Mato Grosso. Factorings (que compram títulos, aquisição de ativos, como duplicatas, cheques, decorrentes de vendas mercantis ou de prestação de serviços) de fachada atuavam como “bancos clandestinos”, fazendo empréstimos fraudulentos.
A operação desta quinta-feira foi deflagrada após a delação do ex-governador de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB). Ele firmou acordo de delação premiada e entregou provas materiais de um esquema de propina no governo dele. Entre os materiais entregues à Procuradoria Geral da República (PGR) estão vídeos que mostram deputados e ex-deputados recebendo dinheiro em espécie. Segundo Silval, o dinheiro era de propina.
Assembleia Legislativa de Mato Grosso foi alvo da operação da PF — Foto: Tiago Terciotty/TVCA
Um dos mandados de busca e apreensão foi cumprido no apartamento ex-governador de Mato Grosso e atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP), na Asa Sul, zona nobre de Brasília.
Polícia esteve na casa do deputado Zé Domingos Fraga, em Sorriso — Foto: Lucas Torres/Portal Sorriso
Carros da Polícia Federal estiveram na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), no Centro Político Administrativo, na casa do prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB), no Bairro Jardim das Américas, na capital, e na Prefeitura de Cuiabá, no Centro da cidade.
Policiais estiveram nos gabinetes dos deputados Gilmar Fabris (PSD), Silvano Amaral (PMDB), Oscar Bezerra (PSB), Wagner Ramos (PSD), Ondanir Bortolini (conhecido como Nininho) (PSD) e Romoaldo Júnior (PMDB).
Policiais federais estiveram na casa do ex-deputado federal Hermínio J. Barreto — Foto: Marcos Souza/TVCA
Participam da ação 270 policiais federais e membros do MPF nas seguintes cidades: Cuiabá, Rondonópolis (MT), Primavera do Leste (MT), Araputanga (MT), Pontes e Lacerda (MT), Tangará da Serra (MT), Juara (MT), Sorriso (MT), Sinop (MT), Brasília e São Paulo.
Além dos depoimentos detalhando como funcionavam os esquemas de corrupção em seu governo, Silval Barbosa entregou provas materiais, entre elas vídeos. As imagens mostram o ex-chefe de gabinete dele, Sílvio Corrêa, entregando maços de dinheiro ao prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB), ao deputado estadual José Domingos Fraga (PSD), ao deputado federal Ezequiel Fonseca (PP), e aos ex-deputados estaduais, Luciane Bezerra (PSB), Alexandre Cesar (PT) e Hermínio Jota Barreto.
Em vídeo de delação, Emanuel Pinheiro aparece recebendo maços de dinheiro — Foto: TVCA/Reprodução
Emanuel Pinheiro alegou que não fez nada ilícito e que vai comprovar isso na Justiça. Já o deputado estadual Oscar Bezerra (PSB), marido de Luciane Bezerra, disse que ela recebeu dinheiro para quitar dívidas de campanha eleitoral. O advogado de Sílvio Corrêa disse que não pode comentar porque a delação está sob sigilo. José Domingos Fraga e Jota Barreto não foram localizados.
Também são cumpridos mandados de busca e apreensão nas casas do secretário de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso, Carlos Avalone Júnior, do senador Aparecido dos Santos (PR), o Cidinho, do dono do jornal Diário de Cuiabá, Gustavo Capilé, de sócios da Construtora Três Irmãos, e na empresa Amaggi, do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, em Cuiabá.
O ministro Luiz Fux diz na decisão que, entre 2014 e 2017, Maggi, Gustavo Capilé e Cidinho vêm tentando prejudiar a investigação no âmbito da Operação Ararath, que investiga crimes financeiros e lavagem de dinheiro. O G1 tenta contato com os outros citados.
O presidente da ALMT, Eduardo Botelho (PSB), informou às 8h28 [horário de MT] que os mandados estão sendo cumpridos nos gabinetes dos deputados que aparecem nos vídeos entregues por Silval. Segundo ele, os agentes não recolheram nenhum documento nos setores administrativos do órgão até agora. Alegou que ainda não abriu investigação contra os deputados, pois aguarda o resultado das investigações da Procuradoria Geral da República.
O TCE-MT informou às 8h40 que expediente foi suspenso por causa da operação da PF. Segundo a assessoria, o órgão vai se manifestar sobre o assunto até as 10h. O G1 procurou Silvano Amaral às 8h20. Ele negou as acusações e explica que os advogados já estão tomando as devidas providências. Ele afirma que está a disposição da Justiça para os esclarecimentos.
O prefeito Emanuel Pinheiro disse às 8h51 que vai se defender na Justiça no momento certo. Já a assessoria de Ezequiel Fonseca informou que ainda vai tomar conhecimento da situação para se manifestar. O G1 tentou por várias vezes falar com Oscar Bezerra, mas ele não atendeu às ligações. A reportagem tenta localizar os outros citados.
Em nota enviada às 12h30, a assessoria do deputado Romoaldo Júnior disse que a Polícia Federal vistoriou todas as salas de seu gabinete, inclusive levou o notebook da chefe de gabinete, o HD da câmera de segurança do computador da sala do deputado, além de algumas agendas da área da saúde e recados que estavam anotados nas mesas do deputado e da chefe de gabinete.
Ezequiel Fonseca disse por meio de nota, às 13h20, que nunca solicitou nenhuma quantia ilícita em troca da atuação no parlamento. Também disse que recebeu o mandado de busca e apreensão com ‘tranquilidade’.
A assessoria de Blairo Maggi divulgou nota às 9h43.
1. Nunca houve ação, minha ou por mim autorizada, para agir de forma ilícita dentro das ações de Governo ou para obstruir a justiça. Jamais vou aceitar qualquer ação para que haja “mudanças de versões” em depoimentos de investigados. Tenho total interesse na apuração da verdade.
2. Ratifico ainda que não houve pagamentos feitos ou autorizados por mim, ao então secretário Eder Moraes, para acobertar qualquer ato, conforme aponta de forma mentirosa o ex-governador Silval Barbosa em sua delação.
3. Jamais utilizei de meios ilícitos na minha vida pública ou nas minhas empresas. Sempre respeitei o papel constitucional das Instituições e como governador, pautei a relação harmônica entre os poderes sobre os pilares do respeito à coisa pública e à ética institucional.
4. Por fim, ressalto que respeito o papel da Justiça no cumprimento do seu dever de investigação, mas deixo claro que usarei de todos os meios legais necessários para me defender e reestabelecer a verdade dos fatos.