“Não é um hobby. Faz parte da minha vestimenta, de quem eu sou”, explica Rihab Sad, muçulmana que mora há 20 anos em Sobradinho, no Distrito Federal. Descendente de palestinos, Rihab é brasileira e travou um embate judicial no último ano para ter o direito de usar o hijab – lenço tradicional da religião que cobre parte da cabeça e do rosto – na foto da carteira de motorista.
Após ficar um ano sem dirigir, a muçulmana conseguiu na Justiça do DF o direito de usar o véu na foto do documento. Casada e mãe de três filhos, Rihab conta que toda a família segue o islamismo e a filha mais velha também usa o véu, que significa “temor a Deus” e a faz se sentir “pura e completa”.
Ela foi impedida de renovar a CNH porque uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) diz que o “condutor não poderá estar utilizando óculos, bonés, gorros, chapéus ou qualquer outro item que cubra parte do rosto ou da cabeça”. Na primeira versão do documento, ela aceitou ficar sem o lenço porque a foto foi tirada por uma mulher.
“Eu me sentia muito constrangida quando era parada em blitz e um homem pedia para ver minha foto. Eu me sentia muito mal, sem o véu a gente está em pecado.”
“Eu só mostrava porque era uma autoridade, mas até o agente de trânsito ficava desconfortável e ainda não me reconhecia sem o véu”, conta a muçulmana.
Rihab foi impedida de renovar a CNH porque se recusou a tirar o véu tradicional da religião islã — Foto: TV Globo/Reprodução
Depois de uma série de constrangimentos, ela procurou a Defensoria Pública e entrou com a ação contra o Departamento de Trânsito do DF (Detran). A juíza responsável pelo caso decidiu que a vedação afronta o direito à crença religiosa.
O Detran informou que vai acatar a decisão, mas isso não vale pra outros processos administrativos. Agora, Rihab espera servir de inspiração para outras pessoas buscarem o mesmo direito.
A muçulmana já possui carteira de identidade, carteira de trabalho e passaporte e, em todos esses documentos, a foto de identificação foi feita com o hijab.
” Minha vestimenta não é pra chamar a atenção, eu uso para Deus. Minha religião me completa em tudo, é como se fosse as minhas pernas.”
Rihab diz que tem amigas muçulmanas que perdem oportunidades de emprego por causa das vestimentas e acredita que muitas pessoas ainda enxergam o islamismo apenas com o estereótipo de guerras ou terrorismo. “As pessoas passam uma imagem muito ruim do islã, só olham o lado negativo. O islã é paz, não temos direito de tirar a vida de ninguém”, afirma.
Rihab Sad e o marido, Sami Sad, são donos de uma loja de roupas em Sobradinho, no DF — Foto: TV Globo/Reprodução
* Sob supervisão de Maria Helena Martinho